Menu

 

LISTA DE ARTIGOS - EDIÇÃO ATUAL

 

 ANTERIOR «|» PRÓXIMO

 

 

Revista da Ciência da Administração – versão eletrônica – vol. 01, jan. / jun. 2007

 

 

INOVAÇÃO E DINÂMICA EMPRESARIAL

 

 

Ester Amorim Nogueira Fernandes[1]

Licenciada e Mestre em Gestão

Doutoranda em Gestão

Instituto Politécnico da Guarda

Escola Superior de Tecnologia e Gestão

 

 

RESUMO

 

Até há cerca de duas décadas, os estudos sobre inovação, limitavam-se ao diagnóstico da I&D e das actividades a que ela dava imediatamente origem. Nos últimos anos, ganhou importância a ideia de que, tão importante como o diagnóstico da I&D, senão mais, é o estudo do processo de difusão das inovações, o que apela para o estudo dos factores não-I&D da inovação. Tendo em conta que a tecnologia é um factor fundamental de estruturação do desenvolvimento económico, concentramo-nos mais nos factores sociais a que está associado, dado que estes aspectos têm sido descurados em detrimento dos factores tecnológicos. Neste artigo, pretendemos reflectir, sobre o conceito de inovação, meio inovador e processo de inovação numa abordagem sistémica e interrelacional. Ter-se-à também em conta o factor competitividade e os agentes locais que podem potenciar o desenvolvimento económico duma região. O objectivo central é mostrar alguns conceitos que, para além de suportarem uma apreciação intuitiva de que a tecnologia é importante para o crescimento económico, permitam afirmar que há fortes razões para se considerar que o ritmo e a direcção da mudança tecnológica interagem com factores económicos, associando-se cada vez mais os desempenhos macro-económicos e a competitividade das empresas aos comportamentos de inovação.

 

PALAVRAS CHAVE: Desenvolvimento, Inovação, Competitividade.

  

 

ABSTRACT

 

Until two decades ago studies on innovation were limited to the evaluation of R&D and activities immediately related to it. In recent years, the idea that study of the process of the spread of innovations is as important as the study of the evaluation of R&D has gained importance, which has in turn drawn attention to the non-R&D factors of innovation. Bearing in mind that technology is a basic structuring factor of economic development, we will concentrate more on social factors to which it is associated, given that these aspects have been put aside to the detriment of technological factors. In this paper, the intention is to contemplate the concept of innovation, innovative tools and innovative processes in a systemic and interrelated approach. The competitive factor and local agents who can give force to the economic development of a region are also considered. The principal objective is to show some concepts that, apart from supporting an intuitive appreciation that technology is important for economic growth, allow us to affirm that there are strong reasons for thinking that the rhythm and direction of technological change interact with economic factors, relating them more and more with macroeconomic efforts and competitiveness of companies towards the behaviour of innovation.

 

KEY WORDS: Development, Innovation, Competitiveness.

 

1   INOVAÇÃO E PROCESSO DE INOVAÇÃO

 

1.1 Evolução do conceito de inovação

O tema da Inovação tem sido tratado muitas vezes em estudos relacionados com o progresso técnico ou com o crescimento económico. Nos últimos anos o conceito de Inovação assumiu mudanças de conteúdo, designadamente na relação a montante e a jusante (tecnologia e mercado), esbatendo-se a ideia de que a inovação é um acto isolado e acentuando-se a de processo interactivo.

No actual contexto económico e social em que se verificam profundas transformações estruturais da sociedade, pondo em causa maneiras de viver, métodos e relações de trabalho, conceitos de organização e formas de gestão em instituições, serviços e empresas, a existência de uma concorrência agressiva, de um mercado em constante mutação e com solicitações permanentes e onde a informação é cada vez mais um instrumento chave para o sucesso, a Inovação assume-se como sendo uma condição necessária no âmbito de uma visão pro-activa e de dinâmica do desenvolvimento económico.

A definição do que é Inovação constitui desde logo uma séria interrogação que pode merecer diferentes respostas de acordo com os indicadores disponíveis e os objectivos em vista. A maioria das definições associa o conceito aos aspectos tecnológicos da introdução de novos ou melhores produtos ou processos. Contudo, são comuns outras concepções, mais gerais, que fazem englobar, por exemplo, as mutações organizacionais e de gestão verificadas muito para além da análise estrita ao nível dos equipamentos, sistemas e dispositivos. Já J. Shumpeter (citado por J. Barata, 1991: 163), admitia cinco tipos de inovação:

- Introdução de um novo produto;

- Introdução de um novo método de produção;

- A abertura de um novo mercado;

- Exploração de novas fontes de matérias-primas ou produtos semi-acabados;

- Implementação de novas formas de organização industrial.

Shumpeter, identificando inovação com progresso tecnológico, desenvolve um conceito bivalente das transformações tecnológicas, referindo-se quer à produção de novos bens, quer à utilização de métodos para produzir os mesmos bens.

É comum confundir-se Investigação e Invenção com Inovação. São aspectos ligados mas não necessariamente coincidentes já que a investigação e a inovação são fontes da inovação. A investigação é uma actividade que visa a procura de conhecimentos e a invenção é uma nova descoberta científica ou técnica, tendo ou não por base a investigação. Uma primeira distinção a fazer-se é, por conseguinte, entre invenções e inovações. A generalidade dos economistas considera que a Inovação requer a adopção de métodos e equipamentos até então não utilizados. Assim, para Freeman (1982), Inovação é a primeira introdução de um novo produto, processo ou sistema na actividade comercial ou social normal de um país.

Deve-se a Schumpeter (1939) a distinção entre invenção e inovação. Invenções são contribuições identificáveis para as mudanças tecnológicas, mas nem sempre são objecto de aplicação. Muitas invenções permanecem sem utilização e não influenciam o sistema económico. Elas tornam-se economicamente significativas apenas quando incorporadas em inovações. Invenção corresponderia à descoberta de novas possibilidades para resolver determinados problemas. No caso das invenções tecnológicas elas não são necessariamente transpostas em patentes ou utilizadas na produção. O seu impacte económico ocorre apenas quando a invenção se transforma em inovação, isto é, tem uma utilização económica (Freeman, 1988). Podemos assim ter inovações financeiras, na abordagem do mercado, organizacionais e institucionais. Se a invenção é a descoberta, o fabrico ou a montagem de algum novo processo, produto ou ideia, a Inovação é o acto da passagem à prática desse processo, produto ou ideia com o objectivo da sua exploração comercial. A Inovação caracteriza-se por uma orientação directa para um produto, protótipo ou processo, sendo seu objectivo último a respectiva colocação no mercado. Deste modo, a inovação associa-se à comercialização, o que a separa do invento ou descoberta científica (Veiga Simão, 1990:111).

O conceito de inovação, não raras vezes, é utilizado fora do seu correcto enquadramento. Brandão Alves e outros (1987) referem que a inovação não deve ser confundida com:

- Alta tecnologia, dado que uma inovação nem sempre advém do recurso às novas tecnologias e pode ser um simples produto novo, vendável, resultante da utilização de tecnologias tradicionais;

- I & D, porque esta actividade, conceptualizando o modelo de geração da inovação pelo lado da oferta é apenas uma fase do processo encontrando-se a montante da inovação, que supõe implantação no mercado;

- Invenção, uma vez que esta é apenas uma ideia nova que requer posterior transformação em novo produto ou processo e a sua “união” com o mercado, a inovação.

De acordo com a proposta de Freeman (1982), a noção de invenção tem a ver com a ideia ou modelo para um processo, produto ou sistema novo ou melhorado, enquanto a inovação, já com uma semântica económica, tem a ver com a entrada da invenção no campo do mercado, com a primeira transacção económica. Hall (1986) vai mesmo mais longe, ao referir que o processo de inovação se pode enquadrar em três fases: a invenção ou a fase pura da criação, a montante do mercado, a inovação, que corresponde ”grosso modo” ao envolvimento da invenção com o mercado e, por último, a difusão, ou seja, a subsequente produção e alastramento da inovação por todo o espectro económico. Da mesma forma se pronuncia Monck (1988), para quem a inovação engloba a invenção e todos os estágios de implementação, como a Investigação, o Desenvolvimento, a Produção e o Marketing. Há, portanto, a salientar que a invenção decorre de um processo altamente criativo dependendo, crescentemente, das actividades de I&D mas podendo, no entanto, existir sem qualquer vínculo a laboratórios ou centro de I&D. A inovação segue, contudo, uma tramitação económica, cujo conceito sugere que se trata da entrada da invenção no mercado, como já se referiu. Quando se dá a primeira transacção comercial concretiza-se a inovação, ou seja, só se verifica a inovação quando um novo produto ou processo é comercializado.

Tradicionalmente as teorias económicas limitavam o estudo da inovação à relação linear mecanicista “Investigação e Desenvolvimento ® Invenção ® Inovação”.

 

        INVESTIGAÇÃO  ®  INVESTIGAÇÃO  ®  DESENVOLVIMENTO  ®  PRODUÇÃO  ®  MERCADO

              BÁSICA                    APLICADA

 

 

O modelo linear de inovação tem acompanhado o pensamento sobre a ciência e tecnologia independentemente da inovação ser explicada pela procura (demand-pull) ou pela oferta de ciência e tecnologia (science/technology-pull) (Barata, 1992:154). Nesta óptica surge implícita a ideia de que é a ciência, ou o seu desenvolvimento, que enquadram e gerem a inovação. Esta seria apenas o fruto, a consequência, dos avanços em determinados campos científicos, segundo o modelo acima explanado - (science/technology-pull). Neste modelo o laboratório profissionalizado de I&D desempenha papel fundamental, actuando como protagonista em todo o processo. Assim, neste âmbito de modelo linear, a ciência está na base da inovação, sendo a criação da oportunidade científica a determinante do processo de inovação. Neste contexto, a forma de intervenção pública na promoção da inovação procurou sempre actuar pelo condicionamento da oferta. Aumentando o stock de conhecimento científico estava-se, neste sentido, a fazer paralelamente com que a economia os assimilasse (Clark, 1990).

Até à década de sessenta, o modelo linear foi aceite. Contudo, hoje, alguns estudos vieram refutar este modelo. Segundo a nova formulação, as inovações decorrem de respostas em relação a necessidades sentidas no mercado, ou seja, é a necessidade económica a geradora de inovação. Nesta perspectiva, as tecnologias são como que depositadas pelos inventores numa prateleira à qual as empresas recorrem de acordo com as suas necessidades (Godinho e Caraças, 1988:939). De acordo com esta visão, a inovação é consequência exclusiva da procura dependendo, tal como a produção de outros bens, da actuação das forças de mercado (Barata, 1992:154).

Hoje, reconhece-se a importância dos factores não-I&D no processo de inovação, nomeadamente os comportamentos de imitação e todos os mecanismos de difusão das inovações que fazem com que muitas empresas inovadoras não desenvolvam necessariamente actividades de I&D. O fenómeno da Inovação é visto, antes de mais, como um “processo” que comporta contínuas e numerosas interacções e retroacções dependendo de uma estrutura plural de actores institucionais (Barata, 1992: 154).

 

Figura 1. - Modelo Interactivo de Inovação: informação/mercado

 

 

Fonte: Godinho, M., e Caraças, J. (1988), pp. 940

 

Na figura 2, que representa o modelo interactivo de inovação distinguem-se dois níveis fundamentais do processo de inovação: um de carácter basicamente “imaterial” - a geração da inovação - que precede a inovação propriamente dita e onde a informação é dominante; outro que corresponde à corporização do “imaterial” no domínio do mercado - o acontecimento inovação, após o qual se processa a difusão da inovação. Neste modelo a interacção entre os diversos agentes inovadores e subsistemas são as principais características do processo de inovação (J. Barata, 1991: 155). Inovações com sucesso levam a um processo de difusão que conduz então a efeitos perceptíveis no crescimento da produtividade e da economia. Neste contexto, é importante sublinhar que muitas inovações acontecem durante processos de difusão, quer como resultado da experiência do utilizador quer como resultado da competitividade entre fornecedores. Por outro lado, como foi dito atrás, a inovação sem a difusão não tem efeitos perceptíveis sobre a actividade económica. Por conseguinte, é preciso ter consciência de que a inovação tem de andar profundamente ligada ao aspecto da difusão, pois só assim é que há propagação do fenómeno inovatório.

Actualmente, tem-se como correcto que a inovação não depende só de um modelo ou de outro, mas da conjugação no tempo e no espaço dos dois. A maioria dos autores concorda que a inovação depende de influências do lado da oferta e do lado da procura. O modelo interactivo agora prevalecente sustenta que os novos produtos e os novos processos resultam de um complexo de interacções que não é redutível a um simples modelo universal. O processo de inovação requer, por um lado, conhecimento técnico-científico e, por outro lado, também a existência de uma necessidade na economia.

Várias tipologias de inovação podem ser usadas em função dos objectivos da análise. Freeman propõe uma distinção em função da amplitude da inovação e do seu impacte sobre o sistema económico. Assim poderíamos ter inovações incrementais, inovações radicais, novos sistemas tecnológicos e novos paradigmas técnico-económicos. A inovação incremental teria lugar de forma mais ou menos contínua e corresponderia a pequenas melhorias ao nível dos produtos e processos. A inovação radical estaria associada à introdução de produtos e processos novos. Os novos sistemas tecnológicos consistiriam de “cascatas” de inovações radicais técnica e economicamente correlacionadas. Finalmente, um novo paradigma técnico-económico define ciclos longos de crescimento do tipo Kondratiev exigindo não só um conjunto articulado de inovações radicais mas também mudanças económicas, sociais e institucionais. Algumas tipologias acrescentam uma outra classificação que seria a da inovação adaptativa. Este aperfeiçoamento da tipologia associa a inovação incremental ao espaço de suporte e a inovação adaptativa ao espaço-mercado das empresas. No primeiro caso as inovações basear-se-iam num conjunto de fontes, nomeadamente cooperação entre empresas, relações informais, conhecimentos transitados por fornecedores de equipamento. No segundo caso o que ocorreria seria a adaptação de conhecimentos existentes transferindo-os para novas utilizações, de forma a ajustar os produtos aos gostos dos consumidores.

Uma nova tipologia atribuída a Pavit (1984) organiza a inovação conforme os sectores produtivos onde ocorre. Teremos “sectores dominados pela oferta”, “sectores de escala intensiva”, “sectores de fornecimento especializado” e “sectores baseados na ciência”. Nos primeiros, a inovação incide sobre a melhor combinação ao nível dos bens intermediários e bens de equipamento. Nos sectores de escala intensiva, a inovação resulta predominantemente de esforços desenvolvidos internamente à empresa que denota muitos recursos a essa finalidade e que posteriormente se revertem numa vantagem competitiva significativa. Nos sectores fornecidos especializados a inovação consiste basicamente em inovação-produto (principalmente bens de equipamento). Finalmente, nos sectores baseados na ciência a inovação depende de invenções que poderão ser aplicadas em bens produzidos por um conjunto amplo de sectores como bens intermediários ou como bens de equipamento. Ocorre em grandes empresas e uma estrutura de investigação significativa é necessária. Referimos acima os conceitos de espaço-mercado e espaço das empresas. Com efeito, alguns autores propõem uma classificação de inovação conforme esta ocorre no espaço-produção, no espaço-mercado ou no espaço-suporte das empresas. A inovação no espaço de produção seria aquela que incide directamente sobre a produção de bens e serviços. A inovação no espaço-mercado integra as mudanças no sistema de comercialização e de distribuição e que indirectamente se reflectem no espaço produto. A inovação no espaço suporte compreende as mudanças ocorridas no meio onde a firma se insere e que têm impacto sobre a sua “performance”.

1.2 Processo de inovação

O processo inovador desenvolve-se no espaço e no tempo e surge integrado entre a inovação, descobertas científicas e tecnológicas e o desenvolvimento económico. A variável espaço faz apelo ao meio inovador, enquanto a variável tempo surge a realçar o carácter dinâmico e não linear de todo o percurso, desde o processo de I&D até à competitividade empresarial e às inovações sociais sem esquecer o efeito de retorno temporal que o desenvolvimento concede sobre a investigação e o progresso técnico. O processo de inovação é visto como um complexo evolutivo de factores, alguns dos quais são exógenos ao próprio sistema de inovação, entendido em sentido estrito, como os factores sociais, culturais e institucionais. Nesta perspectiva, a cultura, compreendida em sentido lato, acaba por ser o factor preponderante de todo o processo de inovação. A hipótese é que o ambiente local, com a sua cultura, com as suas tradições sócio-económicas, em larga medida determina o cariz de actividade inovadora. A empresa não é um agente isolado do contexto, mas sim um elemento enquadrado no meio local que a influencia decisivamente. Como refere Aydalot (1988), o ambiente local é, de facto, o agente inovador, em vez da firma. White e outros (1988) referem que a estrutura dos mercados regionais aparece intimamente relacionada com diferenças na capacidade de inovação. Aydalot descreve o processo de inovação, como um processo de quebra e continuidade, que conjugado com as características do meio facilmente fornece know-how básico, confiança e interacções sociais que são as pré-condições para a criatividade económica e potencial inovação. Estes elementos são a base do dinamismo económico e cultural das regiões.

O sistema de Ciência e Tecnologia, directamente ligado à I&D, é um dos componentes fundamentais, mas tal como todos os outros, como o sistema produtivo, a estrutura demográfica, o regime fiscal. Contudo é um dos factores mais importantes porque é, também, aquele em que mais facilmente se pode actuar para dinamizar o processo de inovação. No entanto, o sistema de C&T não deve ser pensado isoladamente, sob pena de não surgirem os efeitos desejados no campo da inovação, embora se reconheça, por um lado, que os novos produtos e processos estão crescentemente impregnados de informação científica e técnica, dada a sua complexidade. O processo de inovação não pode ser pensado sobre a forma de uma adaptação para o desenvolvimento de uma dada tecnologia, mas como um processo de pesquisa e aprendizagem resultando no surgimento de tarefas inteiramente novas e qualificadas que transformam o próprio meio e dessa forma permitem alargar a hierarquia existente de problemas e soluções (Gaffard, 1986:24). Isto é, a inovação não se confina aos meandros da inovação tecnológica, antes se alarga para englobar a inovação social, a cultural, a institucional. As fronteiras esbatem-se e torna-se destituído de sentido procurar melhorar a competitividade de uma economia no contexto internacional só com actuações no campo da inovação tecnológica, se bem que se reconheça o papel importante que este desempenha. A inovação tecnológica obriga, necessariamente, a um clima de inovação institucional e à existência de um padrão de cultura que aceite e promova a mudança social. Assim, esta nova visão do processo de inovação é fundamentalmente diferente das formulações tradicionais quer porque, por um lado, a interacção entre a multiplicidade de actores institucionais desempenha, agora, papel de vulto, quer porque, por outro lado, contextualiza a I&D no seu ambiente cultural mais lato que a enquadra e condiciona.

Poderá pensar-se que a afirmação de uma inter-relação entre inovação e desenvolvimento regional repousa, em primeira instância, no facto de se gerar uma interdependência entre os dois níveis: se a inovação está associada a um conjunto de factores de ordem humana, material e financeira na promoção do desenvolvimento ao nível de um espaço regional, por outro lado, a presença e efectivação no território dos mesmos factores e consequentemente a elevação do grau de desenvolvimento desse território, constituem o ponto central à eclosão de um processo de inovação.

A inovação não se reduz apenas e tal como temos vindo a referir, ao acto através do qual se adaptam em termos práticos e se concretizam em projectos empresariais as invenções entretanto realizadas ou se melhoram os procedimentos já existentes através de novas aquisições proporcionadas pelas descobertas; ela resulta, também, do contacto quotidiano com o processo de fabrico e com o meio envolvente, em especial os clientes e fornecedores, que são igualmente fontes geradoras de inovação e que representam menor risco referindo como exemplos as joint-ventures, os acordos de cooperação comercial, as auditorias e estratégias conjuntas em todas as áreas funcionais da Organização/Empresa. Este conceito de inovação, baseado no contacto com o processo de fabrico, em particular, e com a organização, em geral, e ainda com o meio envolvente, tem um efeito indutor sobre o aumento de produtividade, sobre a redução dos custos, a melhoria da qualidade e a satisfação de clientes e fornecedores. Os próprios recursos humanos, quando identificados com a cultura da empresa, são uma garantia de agentes potenciais de inovação nas soluções encontradas para problemas eventualmente surgidos. Assim, podemos definir inovação como o resultado do encontro de uma ideia tecnicamente razoável com uma oportunidade económica e social.

A inovação, entendida como a consequência de uma dinâmica sócio-organizacional territorialmente localizada, aponta para um conjunto de estudos e posições teóricas recentes, por parte de vários autores que associam o processo de gestação e difusão de inovação, no contexto actual de uma economia flexível, a conceitos como os de meio inovador e rede de inovação.

1.3 Meio inovador e rede de inovação

O entendimento do processo inovação - desenvolvimento torna-se mais claro quando enquadrado num contexto global integrando, na análise, as variáveis espacial, social e temporal. As variáveis espaço social surgem esclarecendo as diferenças locais do meio em que a inovação se desenvolve, o chamado meio inovador. A variável temporal é a que nos permite transportar no tempo os efeitos, em cadeia, que integram e articulam o confronto de factores ligados à inovação ao desenvolvimento, como temos vindo a referir.

O conceito de meio inovador foi desenvolvido para dar conta, no plano teórico, da modificação da posição de certas regiões menos desenvolvidas na hierarquia espacial. Segundo Aydalot (1984), este facto, constatado no início dos anos 70, não era explicado pelas teorias da época, como a teoria da polarização ou a teoria da divisão espacial e funcional do trabalho, e é verdade que essas teorias explicam a hierarquia dos espaços e não a transformação desta última. Esta constatação levava à conclusão lógica da existência de uma dinâmica autónoma no interior de certas regiões, permitindo-lhes melhorar a sua posição na hierarquia. Considerando que o território não é dado à priori, mas que ele é construído graças à dinâmica dos meios, podemos desde logo considerar que as colectividades regionais têm a possibilidade de promover uma verdadeira dinâmica local fundada na acumulação, no seu território, dos recursos colectivos específicos necessários ao dinamismo do seu aparelho tecno-produtivo (Perrin, 1992).

Segundo os autores Maillat e Lecoq (1992), Benko e Lipietz (1992), a modificação da hierarquia das regiões observada ao longo dos últimos 20 anos é largamente devida a fenómenos de desenvolvimento nascidos no interior dessa mesma região. O conceito de meio permite compreender estes fenómenos e de os formalizar. Pode-se assim mostrar como dinâmicas territoriais específicas funcionam de tal forma que o desenvolvimento de uma região não está subordinado à sua única capacidade de atracção de estabelecimentos e de filiais de grandes empresas, mas depende da sua atitude em originar iniciativas locais, em gerar um tecido de novas empresas e colocar em funcionamento uma dinâmica territorial de inovação. Os estudos realizados ao longo dos anos 60 punham em relevo o papel preponderante de grandes empresas e de grupos multinacionais no funcionamento das economias dos países industrializados. A atenção estava virada para a organização fordista do trabalho, na divisão espacial das funções e na oposição entre as regiões centrais e periféricas. Desde o fim dos anos 70, o desenvolvimento do número de pequenas empresas, as manifestações da sua criatividade e a sua capacidade de inovação, relançaram o interesse nas novas formas de organização de produção e nos mecanismos do desenvolvimento territorial. Esta evolução pôs em evidência as acções de interdependência ao nível territorial, em que as empresas criam redes de troca e de cooperação no seu território de implementação participando, assim, na construção de um ambiente apropriado que lhes permite beneficiar de “externalidades” e recursos específicos. Assim, ao modelo de desenvolvimento vindo do exterior e difundido pelas grandes empresas, substitui-se um outro no qual os territórios não aparecem mais como suporte passivo para a localização de empresas, mas como meios activos no seio dos quais nascem a inovação e a criatividade.

Foi de facto Aydalot (1986) que colocou a hipótese do papel determinante desempenhado pelos meios locais como incubadores de inovação. Realçando que a empresa não é um agente inovador isolado mas faz parte de um meio que a faz agir, ele sublinhava que o passado dos territórios, a sua organização, os consensos que os estruturam era os maiores contributos da inovação. Assim podemos considerar que os comportamentos inovadores não são nacionais mas dependem de variáveis definidas a nível territorial.

Considerando os meios como incubadores de inovação, eles não correspondem a territórios entendidos como simples suporte de actividades económicas. Cada meio apresenta-se como uma configuração de agentes e de elementos económicos, sócio-culturais, políticos e institucionais, possuindo modos de organização e de regulação específicos (Maillat e Perrin, 1992).

Esta análise diferencia-se da aproximação em termos de localização (presença de mão-de-obra qualificada, centros de investigação, aeroportos, actividades culturais, de um clima de bem estar), que era suposto explicar o desenvolvimento de novas actividades, nomeadamente a emergência das actividades de alta tecnologia. Contudo esta aproximação não deu os resultados esperados porque, considerando o território como um simples suporte de factores de localização, ela não permitiu explicar o funcionamento dos processos de desenvolvimento. Pelo contrário, colocando o acento na organização dos meios, nos quais as variadas relações de cooperação se estabelecem entre empresas, clientes, fornecedores, centros de investigação e formação, defendemos que o elemento essencial não é o território no sentido banal: o que importa é o reagrupamento de agentes económicos e de recursos imateriais (formação e investigação) que, pelas suas interacções desenvolvem as competências, o saber fazer, as regras específicas. Convém não considerar o território como um dado à priori, mas como o resultado de um processo de construção (fala-se de território construído) oriundo de estratégias organizacionais dos actores e de fenómenos de aprendizagem colectivos (Lecoq, 1992). Esta problemática está muito bem ilustrada por Gaffard (1992) quando escreve hoje nós temos que fundamentar a nossa análise numa sólida teoria de mudança de tal forma que o território não surja mais como um conjunto de factores de localização e de instituições, mas seja visto como um recurso específico e neste sentido que a sua construção se torne um elemento essencial do processo de mudança. Partindo desta premissa, o conceito de meio toma todo o seu sentido, porque ele sublinha o papel de recursos imateriais (saber fazer), de proximidade, das diversas formas de cooperação e de aprendizagem nas capacidades de uma região em dirigir o seu desenvolvimento.

Estudos empíricos levados a cabo no seio do GREMI (Groupe de Recherche Européen sur les Milieux Innovateurs), orientados sobre o conceito do meio inovador, têm sublinhado o papel essencial da componente territorial no processo de inovação, nomeadamente na criação de novos recursos. Em vez de se debruçar na eficácia dos factores regionais de produção, o GREMI chamou a atenção para os aspectos territoriais dos diferentes recursos colocados em acção nos processos de inovação. A sua reflexão reside na consideração de que a organização territorial é uma componente essencial da criação técnico-económica, remetendo para o conceito de meio inovador (Maillat, Crevoisier e Lecoq, 1991; Perrin, 1991, Barquero, 1993: 56-59). Contrariamente às teorias tradicionais que separam a inovação e o espaço, as análises teóricas do GREMI integram estas duas variáveis ao mostrar empiricamente que o processo de inovação é diferente em cada meio e que este é uma das bases determinantes do processo de inovação.

Segundo Lecoq (1991:133), o meio inovador é um conjunto territorial reticularmente integrado de recursos materiais e imateriais, dominado por uma cultura historicamente construída, vector de saber e saber-fazer e repousando sobre um sistema relacional de tipo cooperação-concorrência entre os actores localizados. Desta definição derivam três dimensões da noção de meio que concorreram à identificação dos seus compostos principais:

- Uma dimensão territorial - o meio é um espaço geográfico sem fronteiras definidas à priori, que não corresponde necessariamente a uma determinada região, identificada por uma certa unidade e homogeneidade, traduzida em comportamentos identificáveis, específicos e com uma cultura técnica, entendida como a elaboração, a transmissão e a acumulação de práticas, saberes e saber-fazer, normas e valores ligados a uma actividade económica. (Maillat e Perrin, 1992);

- Uma dimensão cognitiva - o meio reagrupa um todo homogéneo, um aparelho produtivo, uma cultura técnica e os actores. A cultura da empresa, as práticas organizacionais, os saberes-fazer, a maneira de utilizar as técnicas e apreender o mercado, são elementos integrantes e partes constitutivas do meio. Neste residem um conjunto de práticas e de saberes-fazer individuais e colectivos (Maillat, Crevoisier e Vasserot, 1992). Esta concepção põe em evidência dois elementos essenciais do meio:

- Apresenta o meio como um processo e não como um conjunto estático de recursos genéricos;

- Sublinha a importância do mercado local do trabalho, o qual assegura a circulação e a troca do saber-fazer, a transmissão e a reprodução da cultura técnica local, como consequência, contribui para a reprodução e para a transformação do meio.

- Uma dimensão organizacional - o meio constrói-se e desenvolve-se a partir de redes territoriais que são a expressão de um sistema de interdependência entre os actores (Perrin, 1991 e Quévit, 1991).

O conceito de meio inovador, desenvolvido por Camagni (1992: 430) inclui todos os elementos e processos que afluem ao nível local, por isso ele define-o como um conjunto de relações que ocorrem dentro de uma dada área geográfica que traz unidade ao sistema de produção, aos agentes económicos, e uma cultura industrial que gera um processo dinâmico localizado de aprendizagem colectiva e age como um mecanismo de redução das incertezas do próprio processo inovador. Neste sentido o conceito de meio inovador incide a sua atenção no processo de inovação. Este é a organização territorial onde nascem os processos de inovação. Segundo Maillat, Quévit e Senn (1993) e Perrin (1991), o meio inovador pode-se definir como um conjunto territorializado no qual as interacções entre agentes económicos se desenvolvem pela aprendizagem que eles fazem de transacções multilaterais, de “externalidades específicas” à inovação e pela convergência das aprendizagens tendo em vista formas comuns de gestão dos recursos. A inovação é portanto, segundo esta concepção, considerada como um processo de integração de elementos que determinam e favorecem a dinâmica e a transformação do sistema tecno-produtivo territorial. Deste modo, o meio inovador caracteriza-se pela integração de dinâmicas internas e de mudanças vindas do exterior (extra-locais) (Maillat, Quévit et Senn, 1993; Perrin, 1992). Assim, a inovação sendo um processo complexo e incerto é geralmente posta em acção de maneira colectiva sob a forma de redes de inovação. O meio, tendo em conta as suas características, nomeadamente da lógica de interacção e da dinâmica de aprendizagem, é o contexto apropriado à sua formação, ao seu desenvolvimento e à sua difusão (Maillat, Quévit et Senn, 1993; Perrin, 1992).

Uma rede de inovação é uma forma de organização das relações entre os actores dum processo de inovação que, pela sua pluralidade das especialidades e diversidades dos saber-fazer, coloca em acção uma aprendizagem individual e colectiva cujo efeito sinergético contribui de maneira determinante para a criatividade do conjunto (Perrin, 1990). Outros autores (Maillat, Crevoisier e Lecoq, 1991: 409) definem rede de inovação como um modo evolutivo de organização dos processos de inovação, não estruturado sobre uma forma hierárquica ou sobre mecanismos de mercado, que permite o desenvolvimento contínuo do processo de aprendizagem colectiva repousando sobre combinações novas de tipo sinergético dos saber-fazer detidos pelos diferentes parceiros. A rede de inovação constitui uma resposta organizacional apropriada à complexidade do processo de inovação. Determina um espaço de trabalho colectivo adequado à combinação criativa de saberes-fazer internos e externos à empresa. De acordo com este conceito, a concretização de um processo de criação e difusão tecnológica supõe uma inovação de carácter sócio-organizacional, criação de redes, com reflexo sobre esse mesmo processo de inovação. Assim remete para a ideia do processo de inovação como um processo não individual e isolado mas colectivo, fruto da interacção entre distintas categorias de actores: empresas, centros de investigação e Universidades, instituições públicas e privadas, entidades financiadoras, organizações de consultoria em inovação.

A organização em rede gera a soma de saberes-fazer individuais num saber-fazer colectivo que é superior à soma de cada uma das partes. Quer se trate de um produto novo utilizando novas técnicas ou de um produto que resulte de técnicas já difundidas, a inovação será o fruto de uma combinação criativa de saberes-fazer e competências especializadas existentes ao nível local, com recurso complementar a elementos extra-locais (humanos e/ou técnicos). O grau de inovação reflecte-se nos saberes-fazer necessários, nos modos de aprendizagem colectiva e nas próprias formas de organização em rede (Maillat, Crevoisier e Lecoq, 1991: 412-413). A implementação de uma organização em rede transforma a inovação num processo não apenas dependente de condicionantes técnicas e económicas, mas igualmente de factores históricos, culturais e normativos; uma rede supõe uma tradição e experiência de relacionamento entre os distintos actores, baseada em regras de confiança e conhecimento mútuo e implica a partilha de uma cultura de inovação e de risco, associada a princípios de cooperação (Perrin, 1991: 352 e Maillat, Crevoisier e Lecoq, 1991: 408-409).

Considerado na sua relação com as redes de inovação, o meio representa um conjunto de recursos estratégicos fundamentais à constituição e eficácia daquelas, e consequentemente ao sucesso de um processo de inovação. Para além dos recursos humanos, financeiros e materiais mobilizáveis, referem-se igualmente os recursos imateriais: saberes-fazer e competências especializadas, uma história de cooperação e interacção num quadro de competitividade, uma cultura de inovação e risco, regras definidas e em ocorrência no meio (Barquero, 1993: 48-49). O meio inovador participa na constituição de redes de inovação e intervém na sua dinâmica. De igual modo se poderá dizer que, reciprocamente, as redes de inovação enriquecem o meio no sentido de um crescimento das capacidades criativas deste, do fortalecimento das articulações cooperativas entre actores distintos, do reforço da cultura empresarial local (Maillat, Crevoisier et Lecoq, 1991: 415 - 416).

Mas é evidente que nem todos os meios são necessariamente inovadores. A realidade mostra que um meio é mais ou menos conservador ou mais ou menos inovador, de acordo com as práticas que regulam a sua organização serem orientadas para a exploração das vantagens adquiridas e/ou renovação e criação de novos recursos. A sua evolução dependerá da capacidade que têm os agentes locais em compreender as transformações técnicas e de mercado em relação ao que se passa no seu meio. Para se tornarem inovadores, eles têm de ser capazes de reconhecer as mudanças que intervêm no seu meio ambiente e de se apoderarem delas, ou seja, de gerar processos inovadores susceptíveis de assegurar a adaptação do sistema territorial de produção, desenvolver novas competências (nomeadamente saber-fazer) e novas formas de cooperação (acordos de cooperação tecnológicos e de comercialização, alianças estratégicas) entre instituições de investigação e públicas com vista a colaboração em projectos tecnológicos, educacionais e de infra-estruturas.

1.4 Inovação, competitividade e desenvolvimento

Uma nova era de Competição surgiu nos últimos 20 anos, principalmente relacionada com a globalização dos processos económicos. A competição já não é a descrição de um modo de funcionamento de uma configuração particular de um mercado (um mercado concorrencial), para o distinguir dos mercados oligopolistas e monopolistas. Ser competitivo (isto é, a competitividade) deixou de ser um meio, a competição adquiriu um estatuto de ideologia. 

 (Grupo de Lisboa, 1994: 14)

No quadro das profundas mutações que se têm vindo a operar nas últimas décadas, o aumento da produtividade e da eficácia económica e, consequentemente, o crescimento económico, são actualmente cada vez mais consequência directa e dependente da constante evolução tecnológica, do aumento da flexibilidade dos sistemas produtivos, da crescente globalização e segmentação do mercado, do surgimento de sistemas produtivos locais competitivos (Barquero, 1993: 16). Neste contexto aumentam as pressões sobre os processos de inovação, a necessidade de uma eficácia crescente na gestação e difusão de novas tecnologias, novos produtos, novos modelos organizativos e novos mercados que possibilitem a manutenção do crescimento e de uma capacidade competitiva. Como resultado da crescente globalização da economia mundial, compreende-se que um país já não é competitivo por ter uma dada dotação de recursos, porque esses recursos estão disponíveis no mercado. Um novo paradigma de competitividade surge: o êxito da competitividade assenta hoje na capacidade de adicionar valor aos factores de produção disponíveis, sejam eles nacionais ou importados (Mira Amaral, 1994, p: 47). À teoria das vantagens comparativas, sucede a teoria das vantagens competitivas. Ou seja, o factor chave não é apenas ter recursos, mas sim a maneira como são utilizados. O importante é o esforço e o avanço constante para novos produtos, novos processos de fabrico que nos diferenciem da concorrência. Assim, o que está em causa são as estratégias empresariais, pois tudo isso tem a ver com a capacidade de planeamento empresarial, com a existência de gestores e quadros com elevada qualificação, de técnicos com a melhor formação, com a motivação generalizada no sentido do aumento constante da produtividade e da resposta às necessidades. Os recursos humanos altamente qualificados e motivados constituem o elemento imprescindível e exigível às vantagens competitivas de um país ou região.

Numa economia global, as matérias-primas, as tecnologias e os capitais, além de disponíveis no mercado internacional, têm uma acessibilidade extensiva a todos os que a esses recursos quiserem recorrer. Por isso, com a globalização das economias e com a mobilidade de factores, não podemos pensar somente em termos de existência de recursos, já que o que determina a competitividade é a forma como esses recursos são utilizados, através da valorização e da inovação, ou seja da diferenciação relativamente a outros, avançando para novos produtos e novos processos. O “negócio” é global mas as vantagens competitivas geram-se localmente sendo a localização importante pois que os “ingredientes” para a inovação são inerentemente locais.

Hoje em dia, a competitividade reside na capacidade de ser muito inovador para evoluir para novos produtos e novos processos, para ser muito rápido na resposta ao mercado através dos processos industriais flexíveis, jogando nas economias de gama e não nas economias de escala. A capacidade de inovar é então profundamente influenciada pela localização, dado que é necessário uma base doméstica onde existam clientes sofisticados, capacidade empresarial, empresas competitivas e clusters industriais dinâmicos para que a competitividade possa ser aumentada através da investigação e desenvolvimento tecnológico, do desenvolvimento dos mercados e dos fornecedores bem como da capacidade de gestão e organização, assumindo relevância determinante a informação, o conhecimento e o saber fazer. Dentro deste contexto, uma indústria desenvolve-se se for competitiva. É competitiva se conseguir que os seus produtos se imponham no mercado. Os seus produtos conseguem-se impor, apenas, se forem inovadores. Em qualquer dos casos é a tecnologia a base da competitividade, quer como fonte de inovação, quer como factor de produção. A inovação é um factor de capital importância na competitividade empresarial. Porter (1990: 86) realça como importante factor de competitividade a inovação, que engloba não só a tecnologia mas também os métodos, abrangendo novos produtos, novos métodos de produção, novas formas de organização, novas maneiras de comercializar e identificação de novos grupos de clientes (alteração de gostos, exigências de qualidade pelos consumidores). A introdução no mercado de uma inovação procura invariavelmente os benefícios de uma vantagem competitiva, crescente fracção de mercado, altas taxas de crescimento, que sempre resultam em altos lucros. As inovações que conduzem à vantagem competitiva envolvem uma acumulação de pequenos passos e esforços contínuos. Assim a inovação e a competitividade têm um carácter dinâmico. Não estabilizam num estado de equilíbrio, mas evoluem num perpétuo estado de mudança (Schumpeter, 1957).

Segundo Porter (1993), a inovação visa o desenvolvimento a nível local, regional e nacional e isso passa pelo envolvimento empenhado de toda a população e instituições e em particular das empresas com vista a obter ganhos de competitividade que deverão situar-se cada vez mais a nível internacional. O esquema que se apresenta (figura 2) faz ressaltar todas os componentes que acabamos de referir, ou seja, o envolvimento do meio, o processo de I&D, a invenção e o processo de fabrico, como fontes de fornecimento da inovação, da competitividade e do desenvolvimento.

Figura 2. - Relação entre Inovação e Respectivas Fontes: Competitividade e Desenvolvimento

 

Fonte: Adaptado de Guide sur l’évolution/sélection des projects e des entrepreneurs, Edit. EBN, 1992.

A componente empresarial deve estar associada às restantes dimensões ou aos diferentes factores de inovação. O espírito empresarial e os conhecimentos acumulados da população são, segundo Maillat (1986), os gérmens do desenvolvimento. Maillat põe assim em relevo um processo dinâmico de inovação e desenvolvimento ligado à dinâmica histórica, com todos os valores, costumes, cultura, que ela transportou até aos nossos dias e à dinâmica actual e futura, ligada ao espírito empresarial que, em nosso entender, deve ser encarado não apenas como um dado adquirido e estático, mas como algo que, iniciado no passado, se enraíza no presente e se projecta no futuro. O espírito empresarial ou não existe ou, quando existe, desenvolve-se num processo de retroacção com a inovação e o desenvolvimento.

De acordo com Barquero, o saber-fazer tecnológico e inovador integra um conjunto de factores críticos que marcam o êxito de uma intervenção no desenvolvimento estratégico de um espaço local. Factores esses que se agrupam em cinco categorias:

1. O hardware do desenvolvimento local, constituído pelas infra-estruturas de base que sustentam os processos de mudança e onde se incluem as redes de transportes e comunicações, as políticas de acondicionamento dos solos ou as infra-estruturas de natureza social como hospitais e escolas;

2. O software do desenvolvimento local, formado por factores qualitativos e imateriais necessários ao crescimento, ou seja, acções no sentido de melhorar a qualificação dos recursos humanos, o saber-fazer tecnológico e inovador, a capacidade empreendedora existente, o nível de informação, a cultura de desenvolvimento da população;

3. O Orgware do desenvolvimento, que se traduz na capacidade de organização do espaço para enfrentar os desafios, uma capacidade que não concerne apenas à administração pública e empresas, mas deve incluir todos os agentes;

4. O finware do desenvolvimento local, correspondente ao conjunto de instrumentos financeiros, públicos e privados, utilizados no desenvolvimento estratégico de um território;

5. O ecoware do desenvolvimento local, constituído pelo conjunto de instrumentos que organizam o uso adequado dos recursos naturais existentes, permitindo simultaneamente uma melhoria da qualidade de vida e o aumento da capacidade competitiva.

Se a detenção de uma capacidade inovadora é condição estrutural, a par de outras, para a efectivação de uma dinâmica de desenvolvimento ao nível de um espaço regional, vários autores (Aydalot, 1986; Godinho e Caraça, 1988: 955-956; Blakely, 1994: 304-310) chamam a atenção para o facto de que esta inovação, e em particular a sua difusão, só se verificará quando estiverem reunidos num determinado espaço territorial um conjunto de factores de base que a potenciam e sustentam. Por exemplo, realçam a importância de:

- A presença de universidades e organismos públicos de pesquisa;

- O acesso a redes importantes de transportes e comunicações que, entre outras funções, permitam absorver a informação científica e técnica proveniente do exterior;

- A presença de recursos humanos devidamente qualificados;

- A existência de uma qualidade ambiental, cultural, de serviços, propiciadora de condições de vida atractivas;

- A inserção num quadro legal favorável à inovação, nomeadamente quanto ao regime de patentes;

- A existência de capital de risco disponível para financiar inovações;

- Formas e espaços de interacção entre os diferentes agentes do sistema de inovação.

Como afirma Mira Godinho, se não existirem redes de inovação orientadas de acordo com o desenvolvimento tecnológico interno, nas quais participem as empresas, as instituições públicas e privadas de I&D, os estabelecimentos de ensino superior e os imprescindíveis fornecedores de meios financeiros, o potencial de absorção e inovação da economia encontra-se francamente limitado (citado por Godinho e Caraça, 1988:956). Por conseguinte, podemos referir que existe um conjunto de parâmetros que surgem como factores estratégicos para o desenvolvimento local e como requisitos para uma capacidade inovadora e para o fomento da difusão da inovação, pelo que deverá haver uma inter-relação entre a inovação e o desenvolvimento regional, de forma a atenuar dificuldades existentes, no desenvolver de factores de competitividade, dado que existem ainda bloqueios à diversificação produtiva cuja ultrapassagem, a não ocorrer, pode comprometer a modernização e o desenvolvimento local, como sejam: as acessibilidades, uma cultura empresarial local apoiada em estratégias de reprodução limitada e proteccionismo de mercado, modelos de gestão reprodutores de comportamentos tradicionais reflectidos numa internalização das funções de gestão e resistência ao recurso a competências externas, um quadro negativo em termos de potencial humano mobilizável. O sistema produtivo local terá de passar necessariamente por um comportamento que potencie a mudança ao nível dos produtos, dos mercados, das estruturas organizacionais da produção de forma que assegurem mecanismos de adaptabilidade à concorrência de mercado.

Segundo Porter (1993), o único conceito relevante para a competitividade a nível nacional é a produtividade. O principal objectivo de uma nação é produzir para os seus cidadãos um alto e crescente padrão de vida. A capacidade para o fazer depende da produtividade com que a mão-de-obra e o capital são utilizados. Esta depende tanto da qualidade e características dos produtos como da eficiência com que são produzidos. Este é o primeiro determinante do padrão de vida de uma nação, a longo prazo, e é a origem do rendimento nacional per capita. Por sua vez, a competitividade de uma nação depende da capacidade da sua indústria para inovar e melhorar. É com a inovação que as empresas conquistam a vantagem competitiva. Têm da inovação uma perspectiva alargada, que abrange tanto as novas tecnologias como as novas maneiras de fazer coisas. Têm a percepção das novas bases da concorrência, ou concebem métodos melhorados para competir dentro de esquemas já antigos. A vantagem competitiva cria-se e sustenta-se através de um processo fortemente localizado. As diferenças de valores nacionais, de cultura, estruturas económicas, instituições e histórias nacionais são importantes contributos para o êxito na concorrência. O empresário deve surgir como um recurso tipicamente territorial, no sentido de que ele é o produto de um meio, isto é, de uma combinação local específica de factores económicos, sociais, culturais e institucionais.

As profundas alterações surgidas na Europa a partir de finais do século XVIII engendraram um determinado modelo de sociedade e de esfera de valores, que orientou a gestão e o desenvolvimento das empresas para uma configuração predominantemente economicista e tecnicista, menosprezando os aspectos sociais, afectivos e ambientais. Tal configuração resultou, no domínio empresarial, na sobrevalorização dos aspectos económicos da vida social, no privilégio dos aspectos quantitativos em detrimento dos qualitativos, na predominância de uma perspectiva tecnicista que não contempla os aspectos humanos e organizacionais e no desenvolvimento de um racionalismo anacrónico que baniu a necessidade fundamental de se manterem em equilíbrio as relações sociais, afectivas e ambientais. Um desenvolvimento económico-social, sustentado em dinamismos regionais devidamente integrados, carece de uma profunda interligação de objectivos de produtividade, qualidade e flexibilidade, com um corolário de desenvolvimento das relações sociais e preservação do meio físico envolvente, para melhoria da qualidade de vida das populações. A necessidade de elevação dos níveis de competitividade empresarial face à integração no mercado interno europeu e à crescente mundialização da economia, trouxeram a temática do desenvolvimento do potencial humano como um recurso estratégico. É importante introduzir uma nova concepção de empresa, na qual a flexibilidade sócio-organizacional se torne uma vertente fundamental de estratégias sócio-económicas, no âmbito das quais os objectivos sociais e económicos são muito mais convergentes do que até aqui têm sido assumidos. A flexibilidade sócio-organizacional, indispensável para a eficiência dos meios técnicos ao dispor dos objectivos organizacionais e à eficácia que se pretende alcançar, deve assentar no desenvolvimento do potencial humano como um recurso estratégico, capaz de rentabilizar os demais recursos organizacionais. A flexibilidade que se pretende já não é apenas técnica e quantitativa, mas também qualitativa. Isto é, importa encontrar um equilíbrio dinâmico do sistema empresa, capaz de imprimir um ritmo de competitividade empresarial assente na produtividade, na qualidade e na flexibilidade de uma forma integrada. Obviamente, estas condições permitem a elevação do nível de vida das populações e com ele torna-se possível o desenvolvimento das relações sociais e a preservação do meio ambiente, a caminho de um equilíbrio sócio-ambiental indispensável à vida. Este aspecto é muito importante, porquanto a optimização da competitividade não se pode realizar num quadro exclusivamente económico; a optimização efectua-se mediante uma participação mais ampla dos indivíduos, cuja origem se situa no eixo social - a resistência à mudança inviabiliza os resultados económicos, enquanto as atitudes participativas desenvolvem os restantes sistemas da empresa. Como refere Likert, a gestão humana é a tarefa central e mais importante de todas as tarefas de gestão, porquanto a forma como se realiza condiciona as demais actividades (citado por Martinet, 1990). Dito de outro modo, as empresas serão competitivas se os seus recursos humanos forem qualificados. O desenvolvimento regional será uma realidade e obterá ganhos significativos de produtividade e de competitividade se forem criadas oportunidades para a realização das aspirações dos indivíduos.

1.4.1 O papel dos recursos humanos na competitividade empresarial

A introdução constante de novas tecnologias e a sofisticação na indústria têm transformado as exigências de formação de pessoal nos últimos 20 anos.

                                                                                                       Porter, 1994: 57

No actual contexto de mudança, novas exigências são feitas ao trabalhador e ao seu desempenho. Cada vez mais as ideias e a capacidade de inovação de cada indivíduo têm um papel fundamental no bom desempenho duma empresa ou organização. Ao trabalhador é-lhe exigido o desenvolvimento de aptidões que lhe confiram essa flexibilidade de actuação. Porter (1993), salienta como fundamental para a inovação e competitividade empresarial o papel da formação dos recursos humanos pelo que a formação profissional assume, actualmente, um papel de maior relevância no novo modelo de desenvolvimento - menos centrado na administração dos recursos físicos e materiais e mais orientado para a valorização dos recursos humanos. Presentemente, existe a convicção de que o futuro se jogará nos domínios da qualidade, da produtividade e da inovação, partindo do “valor acrescentado” gerado pelo investimento nas pessoas. Isto alerta-nos para o facto de ser indiscutível que a formação seja um meio para atingir níveis superiores de competências competitivas, quer a nível estratégico, quer a nível técnico, quer a nível social. Ela é um dos mais perfeitos e eficientes processos de comunicação e de lançamento de bases de inovação. A própria política comunitária reconhece como essencial a formação profissional para a implementação de uma sociedade dinâmica capaz de dominar as transformações económicas, tecnológicas, culturais e sociais, de enfrentar os desafios criados pelas outras partes do mundo e de contribuir para o desenvolvimento. As empresas encontram-se sujeitas a processos contínuos de mudanças para se adaptarem às alterações do seu meio envolvente. O dinamismo ambiental afastou definitivamente o planeamento tradicional, de cariz burocratizado, dando lugar a formas de planeamento flexíveis. A rapidez, a inovação, a informação e a comunicação constituem armas estratégicas nos nossos dias. Como consequência, os postos de trabalho têm que ser ocupados por pessoal motivado e qualificado e, cada vez mais, a qualificação dos recursos humanos constitui um factor crítico de sucesso. Os indivíduos são a alma da mudança e factor decisivo para a criação de empresas competitivas, capazes de responder às aspirações de uma sociedade à procura de equilíbrios económicos e sociais que se consubstanciem num desenvolvimento integrado. A formação deve assumir um cariz estratégico, sendo factor catalisador de duas grandes premissas, na óptica do desenvolvimento local: o reforço das dinâmicas e a valorização dos recursos, com relevo para os humanos. Podemos então considerar que o desenvolvimento dos recursos humanos é um aspecto crucial da criação das condições correctas para a inovação e para o crescimento económico. A gestão dos recursos humanos é a mais importante área de interesse numa política de modernização, pois a qualidade dessa gestão é vital simultaneamente para assegurar a competitividade e para orientar as atitudes estratégicas, nomeadamente para facilitar a assimilação e divulgação das novas tecnologias. É necessário de facto, investir em formação dos recursos disponíveis, tirando partindo de características intrínsecas: criatividade, adaptabilidade e flexibilidade. Ponto forte fundamental num mundo industrial cada vez mais a depender da inovação e numa contínua adaptação às necessidades dos clientes.

1.4.2 Interacção universidade/empresa: factor de desenvolvimento

No contexto histórico e geográfico em que nos movimentamos importa realçar o reforço da cooperação Universidade/Empresa à qual deve ser imprimida uma dimensão regional. Só assim se poderão conhecer as necessidades do tecido industrial, garantindo o encurtamento do ciclo investigação - desenvolvimento tecnológico - inovação - competitividade e desenvolvimento, contribuindo para aumentar a rentabilidade económica da investigação. Esta cooperação exige a convergência de esforços da parte dos empresários, das instituições de ensino superior e da região.

Sendo claro que uma infra-estrutura saudável e vigorosa é caracterizada pela interacção intensa entre os seus principais componentes, ela faz-se através do pessoal técnico e profissional que gera conhecimento e o transmite para fora da organização onde trabalha. Neste sentido, o sistema educacional, concretamente o ensino superior, assume uma relevância numa perspectiva de longo prazo, já que o potencial humano, técnico e profissional de alto nível constituem a verdadeira infra-estrutura científica e tecnológica de uma nação.

Basicamente e como é já sabido, dois agentes económicos podem desempenhar um papel decisivo na criação de condições necessárias para um crescimento industrial menos desequilibrado e mais distributivo: o Estado e as empresas privadas. A acção do Estado exerce-se, basicamente, através da via indirecta, nomeadamente, através da incentivação e apoio à iniciativa privada. É nesta perspectiva que Veiga Simão (1992) afirma é muito importante que o Estado saiba diferenciar com precisão três núcleos distintos que o devem orientar: o Estado parceiro e cliente da criatividade ligado ao cientista, ao inventor e ao empresário, o Estado fiscalizador ao serviço do bem comum com função pedagógica e de educador e o Estado-Nação símbolo da soberania nacional. O Estado deve operar em estreita ligação com o poder local, resolvidos ou em franca resolução os problemas básicos do desenvolvimento regional ligados às aspirações básicas dos cidadãos: comunicações, saneamento básico, energia eléctrica, etc. O poder local ao estar associado ao desenvolvimento tecnológico-cultural promove uma activa participação dos centros de saber e de investigação.

Os esforços de formação na indústria têm sido excessivamente dispersos e insuficientes face às necessidades de modernização industrial. A reforma do sistema educativo, de modo a que os jovens que abandonem a escola tenham uma formação profissionalizante, o esforço de coordenação na utilização dos recursos disponíveis para a formação profissional na Administração e o alargamento e adequação do sistema de formação profissional, particularmente ao nível de empresas, permitiriam obter ganhos significativos de produtividade e de competitividade, bem como melhorar a utilização dos recursos humanos da região. Não há estratégia eficaz de mudança, de modernização e de desenvolvimento qualitativo de uma comunidade que não passe pelo sistema educativo, em íntima coordenação com outras estruturas e serviços de formação.

As Universidades e os Institutos Politécnicos deverão, assim, assumir-se como os pontos fulcrais de uma rede de formação especializada, adequada aos tempos modernos, dado que constituem uma privilegiada fonte de inovação. Essencialmente por três razões: em primeiro lugar, porque neles se concentram, em quantidade mais elevada que em qualquer outra instituição, meios humanos altamente qualificados, em segundo lugar, porque estão organizados, melhor que qualquer outra instituição, para estimular a criatividade, em terceiro lugar, porque em grau incomparavelmente superior ao de qualquer outra instituição, eles atingem o ideal da universalidade.

Os Institutos Politécnicos apareceram como centros de formação técnico-profissionais, aos quais compete especialmente ministrar o ensino superior de curta duração, orientado de forma a dar predominância aos problemas concretos e de aplicação prática e promover a investigação aplicada e o desenvolvimento experimental, tendo em conta as necessidades no domínio tecnológico e no sector dos serviços, particularmente as de carácter regional. O ensino politécnico deverá constituir uma forte componente do sistema educativo nacional e o viveiro de técnicos qualificados, dominando as tecnologias modernas da agricultura, da indústria e dos serviços. As Universidades deverão acompanhar a evolução da sociedade, em estreita cooperação com o poder cultural, tecnológico, económico e político. Tanto o Estado como a Universidade representam o interesse público, mas para corresponder a esse interesse, esta deve ligar-se, cada vez mais, ao desenvolvimento e à ocupação estrutural da sociedade. A Universidade deve desempenhar ao nível do desenvolvimento regional um papel de incentivo à criatividade, de forma a preservar e dinamizar as potencialidades próprias de cada região, através de um sistema que interage do seguinte modo (Figura 3):

 

Figura 3 - A Inter-relação entre Universidade e o Desenvolvimento Regional

 

Fonte: Ester Amorim (1994)

 

O impacto do Ensino Superior no desenvolvimento regional faz-se sentir nos domínios do capital físico público, da criação de mercados locais, da formação de quadros superiores do apoio técnico e científico e da dinâmica cultural e atracção da população jovem. Nesta perspectiva, a Universidade será um recurso endógeno, um instrumento activo e directo do desenvolvimento. A Universidade deve intervir na esfera produtiva, particularmente na produção de serviços, deve fazer funcionar a economia dos recursos humanos qualificados pelo lado da oferta, até para por essa via poder fazer despertar a procura: deve não só contribuir com os novos licenciados como aboná-los com garantias de enquadramento institucional - pelas vias do apoio do seu corpo docente mais qualificado e da oferta de serviços qualificados por parte dos seus centros de estudos.

O desenvolvimento das regiões passa, cada vez mais, pela disponibilidade de recursos qualificados; daí também a importância da formação permanente que as Universidades devem assumir. É a mão-de-obra qualificada que permite a inovação, pelo que a sua oferta passa a ter importância capital no desenvolvimento económico regional e no esforço e na diversificação da base económica das regiões. No entanto, o sucesso na retenção/fixação dos recursos humanos depende de factores intrínsecos ao funcionamento da Universidade (a adequação dos cursos à estrutura produtiva da região) e depende de factores extrínsecos à Universidade (capacidade da estrutura produtiva da região para absorver recursos humanos qualificados).

Hoje, um número significativo de cientistas e de empresários sabe quão importante é fortalecer o espaço de ligação entre o saber e o fazer. A evolução da ciência e tecnologia e a sua intensa ligação à economia tornou ainda mais nítida a necessidade de desenvolver esse espaço criativo e inovador que interliga a Universidade à Empresa. Esta interacção implica a participação activa da Universidade e da Empresa, as quais dividem entre si o trabalho, competindo à Universidade a investigação pré-competitiva, que pode ir até ao produto ou protótipo de bancada e cabendo à empresa a concretização das outras fases do processo inovador, desde o protótipo industrial, à produção e comercialização. Esta cooperação aponta para uma potencialização harmónica do saber, do saber fazer e do fazer, permitindo o aproveitamento pelas empresas da inteligência e de conhecimentos científicos actualizados e o acompanhamento pela Universidade da evolução tecnológica, da estrutura produtiva e dos serviços. Assim, cremos ser possível um incremento da complementaridade entre a Universidade e a Empresa no quadro de estratégias de inovação assentes no melhoramento e criação de novos produtos, pelo facto de estas exigirem o recurso a competências de maior especificidade, eventualmente extensíveis ao processo produtivo, e que implicam contactos muito estreitos entre os produtores e utilizadores das tecnologias (Aydalot, 1986 e M. Luger et al, 1991). Esta estratégia, ao fazer depender, em parte, o sucesso da inovação do aproveitamento dos efeitos de proximidade apresenta-se mais ajustada e viabilizadora, em termos competitivos, de soluções regionais e locais baseadas na cooperação Universidade/Empresa.

1.4.3 O papel das PME’s nas economias locais

É usual afirmar-se, quando se discute a problemática regional, que as estruturas industriais do interior são frágeis, desarticuladas, sendo a maior parte das actividades ditas tradicionais caracterizadas, entre muitas coisas, por uma forte predominância de pequenas e médias empresas e um forte coeficiente de localização, ou seja, pela concentração espacial; em todo o caso, a política industrial que lhes é oferecida é uma política de tipo vertical em que o espaço não entra em linha de conta, ou entra muito pouco.

O problema da inovação e dinamização das indústrias tradicionais na perspectiva local, coloca uma outra maneira de abordar a política industrial. É que as pequenas e médias empresas, hoje em dia, têm porventura muito mais forte dependência e afinidade relativamente ao que se passa à sua volta em termos de ambiente humano e económico, do que com aquilo que possa dizer respeito à cadeia vertical de actividades em que nominalmente se integram. Isto é, em certo sentido a noção do sector perdeu algum peso, ao mesmo tempo que a noção de localização ganhou muito mais relevância. Esta transformação está associada à grande transformação da base tecnológica e organizacional dos sistemas de produção e comércio à escala europeia e à escala mundial. Passámos de concepções de indústria centradas no controlo físico, na manipulação física da matéria-prima, a uma concepção que é fundamentalmente dominada, do ponto de vista da estratégia competitiva, pela capacidade de criar valor através da qualidade, através da gestão do tempo de produção e comercialização. A gestão do tempo e da qualidade abriu novas concepções estratégicas para a orientação do desenvolvimento espacial. Os factores determinantes da competitividade na nova ordem europeia, ou mundial, deslocaram-se da simples minimização do custo de fabricação para o campo da maximização da prestação de serviços ao utilizador, considerando também os tempos de ocorrência dessas prestações como elementos da qualidade de oferta. Neste contexto, as PME’s reaparecem com uma nova vitalidade nos espaços económicos locais pela capacidade empreendedora que revelam em termos de adaptação às novas necessidades dos mercados e de relação mais personalizada com os clientes. Por outro lado, surgem-nos com uma boa imagem social no que se refere à sua contribuição para a criação de empregos a nível local. É aqui que a questão espacial assume novo relevo. De certo modo, a pequena e média empresa, mais do que da sua boa integração na cadeia vertical de actividades que definem o sector, depende sobretudo da sua inserção numa região dinâmica, rica em estímulos e serviços de apoio à sua laboração num ambiente de qualidade aberto à inovação.

Importa sublinhar que as PME’s, enquanto elemento activo no processo de desmassificação dos produtos, isto é, da necessidade de aumento da componente de prestação de serviços, poderá representar um factor estruturante duma rede de actividades a nível local susceptível de alargar a incorporação de serviços na produção industrial e, por isso, de possibilitar a requalificação progressiva do sistema económico local, na base da valorização e qualificação dos recursos regionais. As pequenas e médias empresas necessitam de viver num ambiente físico, humano, geográfico, dotado de forte vitalidade que actue em simbiose com as forças de dinamização que existem dentro da própria empresa. Hoje em dia, as empresas têm de buscar o húmus, o caldo de cultura da inovação no ambiente humano que as rodeia, ou então dificilmente poderão ganhar competitividade sem a profunda cooperação do ambiente que as circunda. Se não houver um sentido comum de corresponsabilização dos vários tipos de actores, entre os quais empresários que estarão em concorrência noutros campos, não haverá possibilidade de gerar uma oferta regional abundante de mão-de-obra altamente qualificada ou de serviços que funcionem em relação à maioria das empresas como agentes de dinamização. Este aspecto é absolutamente decisivo, como o é também o facto de nenhuma empresa hoje, por si, ter sequer a capacidade de reter no seu seio todos os elementos de comando estratégico da sua evolução. As pequenas e médias empresas modernas necessitam de serviços externos, que as ajudem a pensar e a executar a sua estratégia no pleno conhecimento quer das limitações, quer das potencialidades características do seu ambiente operacional externo e interno. É preciso conceber o desenvolvimento regional numa perspectiva do alargamento da cooperação numa base inter-regional, suficientemente larga para vencer o obstáculo da formação humana de base geral capaz de impulsionar a competitividade e dar modernidade, qualidade tecnológica e estética a produções fundadas na cultura e no gosto investidos historicamente em certas regiões e suas populações, fazendo-as participar da evolução do gosto e da cultura de outras regiões mais dinâmicas. As regiões do interior deverão estimular a inovação regional através essencialmente do apoio ao surgimento de iniciativas empresariais capazes de produzirem bens e serviços de elevada qualidade e valor acrescentado. Esta linha de desenvolvimento permitirá não só reforçar a “imagem” da região no exterior como também proporcionar um novo quadro para o aproveitamento das potencialidades existentes e a consequente valorização dos recursos regionais (materiais e humanos). Pelo que a integração e o desenvolvimento dos serviços de apoio à actividade produtiva numa determinada região constitui, sem dúvida, uma condição básica para o desenvolvimento de tecnologia própria e, ao mesmo tempo, um elemento chave para a dinamização do sistema económico local e regional.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

ALVES, M.,B. O conteúdo espacial da inovação tecnológica: algumas reflexões sobre o caso português, In: Comunicação apresentada às Jornadas Nacionais de Investigação Cientifica e Tecnológica..Lisboa: JNICT, 1987.

 

AMARAL, Mira.. O Pedip II e os objectivos da política industrial.. In: Cadernos de Economia, n. 27, p. 47, 1994.

 

AYDALOT, P. La crise économique et l’espace: recherche sur les nouveaux dynamismes spatiaux. In : Revue Canadienne de Science Régionales. v. 3, n. 1, p. 9-31, 1984.

 

______. (Ed.). Trajectoires technologiques et milieux innovateurs. In : Milieux Innovateurs en Europe. Paris : Gremi, 1986a.

 

______. Milieux innovateurs en Europe. Paris : GREMI, 1988.

 

BARATA, J., M. Inovação e desenvolvimento tecnológico: conceitos, modelos e medidas. Pistas para a investigação aplicada. In: Estudos de Economia. Lisboa, v. 12, n. 2,  p. 153-155, 1991.

 

______. Inovação e desenvolvimento tecnológico: conceitos, modelos e medidas. Pistas para a investigação aplicada. In: Estudos de Economia. Lisboa: ISEG, v. 12, n. 2, p: 147-171, jan./mar., 1992.

 

BARQUERO, A. V. Política económica local. Madrid: Ediciones Pirámide, 1993.

 

BENKO, G.;  LIPIETZ, A. (Orgs.), O novo debate regional: posições em confronto. In: As regiões ganhadoras. Oeiras: Celta, 1994. p. 3-15.

 

BLAKELY, E. Planning local economic development: theory and practice. 2. ed. London: Sage, 1994.

 

CAMAGNI, R. The concept of innovative milieu and its relevance for public policies. In: European Lagging Regions. In: XIII Conferenza Italiana di Scienze Regionalli. Ancona, v.1, n. 5-7, p. 427-453, ott. 1992.

 

FREEMAN, C. The economics of industrial innovation. London: France Pinter Publishers. 1982.

 

______. Diffusion: the spread of new techonology to firms, sectors and nations. In: HEERTHJE, A. (Ed.). Innovation, technology and finance. Oxford: Basil Blackwell, 1988.

 

GAFFARD, J. C. Territory as a specific resource: the process of construction of local systems of innovation. Nice: Latapses, 1992. (Mimeo).

 

GODINHO, M.; CARAÇA, G. Inovação tecnológica e difusão no contexto de economias de desenvolvimento intermédio. In: Análise Social, v. 24, n.103/104, p. 29-62, 1988.

 

GRUPO de Lisboa. Limites à competição. Lisboa: Publicações Europa-América, 1994.

 

GUIDE sur l’evolution/sélection des projects e des entrepreneurs. [S.l.]: EBN, 1992.

 

HALL, P. The theory and practice of innovation policy: an overview. In: HALL, Peter (Ed.), Technology, innovation and economic policy, Oxford: Philip Alan, 1986.

 

LECOQ, B. Organisation industrielle, organisation territoriale: une approche integree fondee sur le concpt de reseau. In : Revue d’Economie Régionale et Urbaine, n. 3-4, p. 133-341, 1992.

 

LUGER, M. et al. Local factors influencing activities in public R&D organizations. Regional Science Association, 31 set. Lisboa : European Congress, 1991.

MAILLAT, D.: LECOQ, B. New technologies and transformation of regional strutures in Europe: the role of the milieu. In: Entrepreneurship & Regional Development, n. 4, p. 1-20, 1992.

 

______.; CREVOISIER, O. ; LECOQ, B. Reseaux d’innovation et dynamique territoriale : un essai de typologie. In: Revue d’Economie Régionale et Urbaine. n. 3-4, p. 407-432, 1991..

 

______. ; PERRIN, J. C. Entreprises innovatrices et développement territorial. Neuchâtel : GREMI ; EDES, 1992.

 

______. ; QUEVIT, M.; SENN L. Réseaux d’innovation et milieux innovateurs: un pari pour le développement régiona. Neuchâtel: GREMI ; EDES, 1993.

 

MARTINET, A. Estratégia. Lisboa: Edições Sílabo. 1990.

 

MONCK, C. Science parks and the growth of high technology firms. Beckenham: Croom Helm, 1988.

 

PAVIT, K. Sectoral patterns of technical change: towards a taxonomy and a theory. In: Research Policy, 1984.

 

__________. Dynamique industrielle et développement local: un bilan en termes de milieux. Ed. par MAILLAT, D. ; PERRIN, J.C.. 1992.

 

PERRIN, J.C. Reseaux d’innovation - milieux innovateurs : developpement territorial. In : Revue d’Economie Régionale et Urbaine,. n. 3-4, p. 343-374, 1991.

 

PORTER, Michael. A vantagem competitiva das nações. Lisboa: Campos, 1993.

 

QUEVIT M. Innovative environments and local:international linkages in enterprise strategy: a framework for analysis. In: CAMAGNI, R. (Ed.). Inovation Networks: spatial perspectives, London: Belhaven Press. 1991.

 

SCHUMPETER Joseph. Teoria del desarrollo económico. México: Fondo de Cultura Económica, 1957.

 

SIMÃO, J.,V. Inovação, tecnologia e formação: reflexões. Lisboa: Editorial LNETI. v. 1, p. 111, 1990. (Série Modernidade-desenvolvimento).



[1] Ester Amorim Nogueira Fernandes,  Av.ª R.ª D. Amélia, 142 –  3.ºDto,  6300, Guarda

Telemóvel: 962 652 694 ;  E-mail: esteramorim@ipg.pt

 

TOPO

 ANTERIOR «|» PRÓXIMO

 
  Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco - FCAP/UPE - 2007-2010